sábado, 12 de janeiro de 2013

ARGO

"O filme era uma farsa. A missão era real."
Lançado em 2012 e dirigido por Ben Affleck, Argo é uma história baseada em fatos reais. Conhecemos muito bem a história do nosso mundo ocidental, porém, quando tratamos do passado de nossos vizinhos orientais, ficamos perdidos.

No final da Segunda Guerra Mundial, o povo do Irã elegeu com grande entusiasmo Mohammad Mossadeq como seu primeiro-ministro. Em contrapartida, o "xá" do país continuava sendo Mohammad Reza Pahlavi, favorável aos ícones imperialistas da época (Reino Unido, URSS e EUA).

A postura nacionalista de Mossadeq levou à extinção da Anglo-American Oil Company (Companhia de Óleo Anglo-Americana), devolvendo o petróleo aos iranianos. Obviamente, não agradou nem um pouco os EUA, que providenciaram um golpe de estado, derrubando-o do poder. Reza Pahlavi foi se tornando gradativamente um ditador, esbanjando riqueza, enquanto o povo sofria.

Aiatolá Khomeini
Em 1979 ocorreu a REVOLUÇÃO ISLÂMICA: o xá Pahlavi foi derrubado e foi proclamado a "República do Irã", com Aiatolá Khomeini como líder supremo religioso e Bani-Sadr como presidente. O Reza Pahlavi foi exilado nos EUA enquanto se tratava de um câncer, o que levou milhares de iranianos às ruas, protestando pelo seu retorno e julgamento. Tudo isso desencadeou a famosa invasão da embaixada americana em Teerã.

Persépolis
Interessante que a introdução do filme é narrada mostrando, através de ilustrações que remetem a um story-board, esse conturbado contexto histórico. Sacada genial, já que um story-board sempre é apresentado antes do início de qualquer filmagem. Numa feliz coincidência, enquanto via esse filme, minha esposa lia uma fabulosa história em quadrinhos chamada "Persépolis", de Marjane Satrapi. A autora é iraniana e seu trabalho retrata os fatos desse período, pelos olhos inocentes de uma criança. Essa HQ, por si só, merece uma resenha!

Ben Affleck mais uma vez se mostra à vontade como diretor. O problema é que insiste em atuar nos seus próprios filmes. Como protagonista, ele faz o papel de um agente da CIA chamado Tony Mendez, encarregado de trazer de volta para os EUA os seis funcionários da embaixada americana que escaparam durante a invasão supracitada, enquanto outros 55 ficaram como reféns. A vida pessoal do agente é mostrada de maneira bem superficial: casado, mas vive sozinho, longe da esposa e do filho - fato que não é explicado no filme. E é numa conversa telefônica com seu filho, enquanto assistiam "A Batalha no Planeta dos Macacos" na TV, que surge a grande e insana epifania de como ele executará a tal missão.

A atuação "zen" de Ben Affleck não chega a prejudicar o filme, já que o papel exigia um indivíduo centrado, determinado em concluir um trabalho que não dependia só dele, mas de outros seis acuados em território inimigo. Em contrapartida, os seis atores que fazem parte da equipe da embaixada se destacam não só pela exímia atuação que transparece um estresse sem medida, mas pelo figurino e maquiagem impecável. A direção de arte chama atenção: durante toda a película ficamos imersos na angustiante atmosfera iraniana da época.

Enquanto isso, as cenas em Los Angeles são mais leves e quase cômicas. Duas figuras de Hollywood, Lester Siegel (Alan Arkin), produtor, e John Chambers (John Goodman), especialista em maquiagem - inclusive responsável pela série de filmes "O Planeta dos Macacos" - são a dupla dinâmica que faz o plano de Tony Mendez engrenar.

A missão secreta de Tony Mendez é tão absurda que soa inverossímil, contudo os créditos finais traz ao espectador a lembrança de que tudo é mesmo uma obra baseada em fatos reais. E finalmente terminamos com aquele nó na garganta. Como a humanidade pode progredir com tanta ganância dos mais poderosos e tanta intolerância dos mais radicais? Concluo relembrando o comandante Taylor (Charlton Heston), citando mais uma vez "O Planeta dos Macacos", quando ele descobre que destruímos o nosso futuro...


"We finally really did it. You Maniacs! You blew it up! Ah, damn you! God damn you all to hell!"