terça-feira, 8 de janeiro de 2013

HOLY MOTORS

Hermético. Intrigante. Holy Motors (2012) é tormenta confusa, inquietante como aquele quadro famoso, passível de inúmeras interpretações, mas com a verdade trancada com seu criador.

Holy Motors tem Leos Carax (Tokio!, Pola X) como diretor e roteirista. Não tenho a pretensão de conseguir explicar todos os meandros dessa obra (que possuem diversas referências ao cinema americano e europeu, incluindo da parte técnica cinematográfica). Nem de fazer papel de pseudo-intelectual, me vangloriando de ter absorvido o que Carax queria transmitir. Posso dizer que iniciei o filme como todo mundo, sentado em frente a uma tela, em silêncio, encarando hipnotizado espectadores como eu, silenciosos, adormecidos. Quase uma piada: provavelmente ele suspeitava que a maioria do nosso grande público seguiria para aquele destino após começar a ver seu filme "maluco".

O filme conta a história do monsieur Oscar (Denis Lavant) em um dia de trabalho. Seu peculiar ofício se baseia em circular pela cidade de Paris numa limousine e incorporar diversos personagens e em cada situação, uma realidade diferente.

O filme começa com o diretor Leos Carax quebrando - literalmente - a "quarta" parede e nos acompanhando dentro da sala de cinema pra ver sua película. Apenas um tranquilo som de mar e gaivotas paira pelos corredores escuros da sala, levando o curioso espectador em um fantástico raccord entre som e imagem, mostrando na tela uma mansão de arquitetura naval. É o começo de nossa viagem e a limousine de nosso protagonista parte.

Ah, então monsieur Oscar é um banqueiro? Não. 
Ator? Não exatamente.

Em seu trabalho, pulando de "compromisso" a outro, Oscar se passa por um banqueiro, uma velha mendiga, uma monstro libidinoso em CGI, o horrendo senhor Merde do filme "Tokyo!", além de outros. Como um camaleão, ele faz sua própria maquiagem em seu camarim móvel. No intervalo, almoça assistindo um pouco de TV, que passa nada mais que a prosaica vida real, as ruas de Paris.

Uma constante me chamou atenção no trabalho de Oscar: a solidão. A velha mendiga pedindo esmolas, tão invisível no meio da multidão. Sua atuação solitária com o fundo verde (chroma-key). Posteriormente interage com uma flexível coadjuvante, contudo a realidade é o virtual: duas criaturas dantescas numa tentativa inútil de acasalamento. O máximo de interação fica por conta do senhor Merde que após seu intempestuoso passeio pelo cemitério (com direito a lápides com inscrições do tipo "visite meu website"), captura a bela e apática modelo Kay M (Eva Mendes). Estaria ela simbolizando o belo sem conteúdo? Em seu cativeiro, a modelo aceita passivamente todas as alterações que Merde faz em seu vestuário - transformando-o em uma espécie de burca. Talvez, mais uma vez, Oscar estava sozinho...



Oscar chega a atuar com ele mesmo. Ele personifica o assassino Théo contratado para matar seu outro personagem, Alex. Mas algo sai errado e aparentemente o personagem que supostamente deveria morrer, se vinga e, assim, ambos personagens saem feridos (uma crise existencial?). Logo em seguida, Oscar encontra-se coincidentemente com ele mesmo no papel do rico banqueiro e, num mar de fúria, parte para matá-lo. Devaneios da minha parte, o banqueiro poderia bem estar representando os produtores e as grandes distribuidoras do mundo do cinema que frequentemente vêm o cinema não como arte, mas como dinheiro.

[Já vi em uma entrevista que Leos Carax considera seu filme uma ficção-cientifica - "mais ficção do que ciência" - e que sua obra não é sobre o cinema e sim sobre um futuro distópico, às avessas. Entretanto não posso deixar de tirar minhas próprias conclusões: o cinema é a sétima arte e a arte está aberta para discussão!]

O filme segue então para uma cena em que Oscar está em um novo ato, num leito de morte, e contracena com uma jovem, sua "sobrinha". Ela se despe e imediatamente está de luto. Seria Oscar a personificação do cinema clássico, artístico, e sua sobrinha o cinema atual? Sua crise seria reflexo disso tudo. O cinema-arte está com os dias contados, numa época em que as salas de Multiplex e iMAX só apresentam filmes exuberantes, recheados de efeitos especiais, grandes produções com pouco conteúdo. A cena termina e Oscar continua sua jornada, mas já apresenta sinais de fadiga, sem apetite e de tosse frequente, refletindo seu espírito atormentado.

E, por acaso do destino, antes de seu último compromisso, se depara com uma antiga conhecida, Eva Grace (Kylie Minogue). Seu traje e corte de cabelo remetem a filmes mais antigos e sua aparência lembra muito a da personagem Patricia Franchisi de Acossado, clássico de Jean-Luc Godard. (Patrícia Franchisi era a repórter americana que conquistou o coração do francês trambiqueiro Michel.)

Jean Seberg em Acossado e Kylie Minogue em Holy Motors


Eva Grace e Oscar trabalham no mesmo ramo e relembram com grande nostalgia o passado. Eva parece representar o clássico americano e Oscar o velho cinema europeu, ambos ameaçados pelo vazio cinema moderno. Um momento musical emocionante tenta resgatar a lembrança daquela época ilustre, momento esse que homenageia os musicais, grandes fenômenos do cinema americano. Mas o show deve continuar e ambos seguem com seus trabalhos.

É fim do dia e Oscar é deixado para seu último compromisso. Céline (Édith Scob), única confidente de Oscar e também sua motorista (sua diretora? agente?), segue para o estacionamento "Holy Motors" mas não sai do automóvel sem antes vestir sua máscara. Talvez por ser cúmplice de Oscar, representante daquilo que um dia foi revolucionário, a novelle vague, não seria fácil circular nesse ambiente tão melindroso do cinema contemporâneo. Além disso, é uma referência à "Os Olhos Sem Rosto" (1960), estrelado pela própria Scob.

P.S. Interpretação é que nem opinião, cada um tem a sua. Holy Motors é um filme complexo, mas ele instiga o espectador à busca de significados. Insisto em dizer que talvez falte-me bagagem para identificar todas as referências cinematográficas (que são várias). Contudo, muitas vezes sentir já é o suficiente.

P.S.2 O bate-papo das limousines no final foi quase uma mistura de "Toy Story" com "Carros" (ambos da Pixar). O trecho mostra que, além do cinema, até os automóveis se preocupam em se tornar obsoletos...